Da violência

Hannah Arendt

Seminário de Sociologia - Turma de 2000

Professor Mourão

 

۩ Relatório do Seminário

 

Hannah Arendt propõe reflexões sobre os acontecimentos do século XX concernentes às guerras e revoluções. O próprio Lênin predissera tal cenário ainda que provavelmente inferindo sobre a disseminação do comunismo, já que segundo sua perspectiva internacionalista, a revolução na Rússia serviria como um estopim para a eclosão da revolução em outras nações.

De qualquer forma, a violência teve um papel extremamente marcante ao longo deste século. É interessante notar que no período entre guerras (1918-1939) a "Legitimação da Violência" consta na proposta do regime de consenso, aquele próprio de partido único quer de esquerda ou direita. As propostas de consenso consideram-se "a alternativa" e quaisquer meios são legítimos para atingir os fins a que se propõem, inclusive a violência, vista como meio legítimo de eliminar os que se colocam como obstáculo à revolução.

Um outro fator que também assumiu um papel importante é o progresso técnico dos instrumentos de violência. Vale ressaltar que essas grandes inovações dos instrumentos de violência se devem primordialmente ao processo de unificação alemã, mais precisamente no que concerne aos preparativos para a guerra Austro-prussiana (1866). O chefe do Estado Maior da Prússia, Moltke, foi o primeiro a compreender o que se poderia tirar de proveito da Revolução Industrial para a montagem de guerra. Dessa forma houve uma remodelagem do exército visando maior eficácia, através da utilização de fuzil carregado de balas pela culatra ( os tradicionais eram carregados pela boca do cano), da utilização do telégrafo, de ferrovias entre outros.

Durante a Guerra Fria, com ascensão de duas potências e o advento de armas nucleares e biológicas, a guerra perdeu muito de sua eficácia e seu glamour. Se qualquer um vencesse, implicaria no fim de ambos, o objetivo racional não é mais a vitória e sim a dissuasão, sendo a corrida armamentista um meio de se ter mais dissuasão para garantir a paz. A autora chegou a se perguntar como seria o fim dessa insanidade e não conseguiu prever esse fim, que já presenciamos com o esfacelamento da antiga União Soviética.

Na medida em que a violência sempre necessita de instrumentos e como os propósitos da atividade humana não podem ser previstos com certeza, os fins - a luta armada, correm o perigo de serem dominados pelos meios - instrumentos aperfeiçoados de destruição. E na verdade são dominados já que quando estão envolvidas armas nucleares, o conflito armado desaparece em sua totalidade.

A única razão para a existência de conflitos deve-se ao fato de que não há substituto algum para esse árbitro final das relações internacionais no cenário político. A autora acrescenta que enquanto houver independência nacional e soberania do Estado não é provável que apareça outro substituto. Soberania aqui é definida como a reivindicação de um poderio ilimitado e irrestrito nas relações internacionais. A autora ainda parece lamentar-se do fato de os Estados Unidos da América terem herdado a estrutura política conceitual do Estado nação europeu, já que no princípio o conceito de soberania era inexistente na Constituição dos EUA.

Ora, mas se os EUA não tivessem adotado este esquema político europeu, o que seria do mundo nos pós-guerras? Provavelmente o grande país vencedor teria sido a Alemanha, com uma ideologia bastante diferente e às vezes equivocada, como na limpeza étnica em busca da manutenção da pureza e cultura da "raça ariana".

Os donos do saber (também chamados de “futurólogos”) são os assessores dos governos em matéria de estratégias, principalmente em relação às guerras. Procuram fazer previsões em relação às conseqüências de certas hipóteses, negligenciando sua realidade e praticando uma pseudociência de objeto especulativo, que procura imitar as características das ciências com conteúdo realmente intelectual.

A ciência dos “donos do saber” representa um perigo, pois pode levar a crença de uma compreensão e controle dos eventos, quando, na verdade, tal controle não existe.

A previsão do futuro nada mais é do que a projeção de eventos que aconteceriam se os homens não interferirem e se nada de inesperado acontecer. Tratar o inesperado como irrelevante nas projeções facilita o esclarecimento da teoria, mas a move para longe da realidade, tornando-a hipnótica, deixando de lidar com a realidade dos fatos.

O estudo da violência vem sendo negligenciado, apesar de seu enorme papel nas atitudes humanas. Foram poucas vezes objeto de decisão. Tal fato decorre principalmente da casualidade da violência. Até então, ela era tida como um fenômeno marginal , enquanto a ênfase se manteve na continuidade do processo que permanece determinado por aquilo que precedeu o ato de violência. Assim manifestam-se filósofos como Clausewitz e Engels.

O estudo da violência como ciência é praticamente inexistente. Existem estudos voltados para os instrumentos, meios, causas, efeitos e até das implicações político-econômicas da violência. A explicação talvez resida no fato de a violência ser tão presente na vida do ser humano, tornando-o incapaz de examiná-la.

Atualmente, guerra e paz se confundem, não porque são parecidas na forma, mas porque em ambas existe um conflito, conflito este que, pode acabar em catástrofe. Seguida da II Guerra Mundial, não se assistiu a um momento pacífico, mas o que se viu foi uma guerra indireta, por isso chamada guerra fria. Talvez muito pior, no sentido de relações e conseqüências que a própria II Guerra, já que o mundo se dividiu, e o desenvolvimento bélico tornou o problema muito maior, obrigando os países a se alinhar em um dos dois lados.

A violência direta ou indireta, na verdade, agora já faz parte da vida da sociedade e a afirmação de Engels de que a guerra é aceleradora do desenvolvimento, não tem mais o menor senso. É mais sensato e condizente concluir que “a própria guerra é o sistema social básico, dentro do qual outros tipos de organização social conflitam ou conspiram”.

O desenvolvimento nuclear, nada mais representa do que o extremo do poder de coação, quer dizer, aqueles que investem neste desenvolvimento, possuem poder político. Essa fórmula deixou os países subdesenvolvidos muito mais vulneráveis aos conflitos, já que estes não se equiparam aos primeiros e acabam se submetendo, ou mesmo que não exista uma submissão clara, existe uma tensão muito maior, porque as conseqüências de determinado conflito, agora refletem em âmbito mundial e com certeza, terá reflexos bem mais sérios para aqueles mais fracos . Portanto em breve, talvez assistamos a uma influência por parte dos países desenvolvidos em relação aos países subdesenvolvidos de cunho coercitiva, isto é, não uma influência diretamente política, mas violenta, ameaçadora. Assim como aconteceu em Kosovo, onde o que definiu os acordos, não foi um suposto vínculo político, mas sim essa força coercitiva e de caráter ameaçador advinda dos países desenvolvidos e interessados.

Desta forma volta à tona a velha afirmação de que a riqueza não serve de referência para se medir o poder de um país, mas são outros os termos que classificam um país como tal, neste caso, a violência coercitiva.

O mais preocupante é que a posição da violência, cada vez mais alcança níveis justificadores, principalmente quando se refere a revoluções. Nesta situação, a violência assume uma patamar nobre, explicando ditaduras, como a liderada por Tito na Iugoslávia, ou ainda a revolução liderada por Máo Tsé-tung, segundo o qual o “poder brota do cano de uma arma”. Estes, a fim de alcançar um ideal, plantado por Marx, matavam, torturavam e tornavam tudo isso legítimo diante dos olhos de quem via. Este talvez seja um efeito colateral não previsto por Marx, que via o papel da violência secundariamente, para ele as classes dominantes utilizavam da violência, sendo o Estado a expressão máxima deste uso, mas seu poder não se baseava nisto, consistia no papel desta classe no processo produtivo.

Marx, na verdade, rejeitava o emprego da violência, ao contrário de outros que viam no uso da violência, mesmo que temporária (como na ditadura do proletariado, que teria caráter transitório) o único meio de atingir os fins ideais. E foi o que se observou em países como a China e a Iugoslávia ou mesmo na Rússia, onde a violência era vista como imprescindível para a implementação dos tão sonhado ideais sociais.

Esses modos violentos, na realidade, sempre foram características próprias da Direita, já que a Nova Esquerda entende que as revoluções não devem ser arbitrárias, impostas, mas devem surgir de um consenso, “o resultado necessário de circunstâncias inteiramente independentes da vontade e da orientação de certos partidos e de classes inteiras”.
O que de fato deveria representar o pensamento de todos, inclusive dos que se encontram em níveis superiores, como as potências, pois a violência é característica de uma relação desigual entre forte e fraco, que não é legítima, pois é efetivada através da pressão.

A geração da Nova Esquerda, por ser a primeira geração a conviver com o perigo de uma bomba atômica e por ter entrado em contato com os horrores de guerras passadas, como o massacre aos judeus na segunda guerra e a morte maciça de civis, inerente a qualquer guerra, tornou – se contrária a todas as formas de violência, o que pode ser verificado na luta pelos direitos civis e nos protestos contra a guerra do Vietnã. Porém essa não violência se encontra enfraquecida e cada vez mais surgem movimentos que vêem a violência como solução para seus problemas.

Esses novos militantes, comparados com os ludistas Europeus do passado, tem seu comportamento justificado por diversos fatores, muitas vezes contraditórios, como "a falta de liberdade no leste Europeu e a liberdade excessiva no Ocidente". Porém esse movimento é global e essa geração se caracteriza por sua coragem, sua disposição, e sua crença em poder mudar o mundo e o que pode ter causado esse movimento é o fato de que "o progresso tecnológico está levando, em muitos casos, diretamente ao desastre"

As universidades, onde ocorrem esses progressos, necessita de uma separação bem definida entre a pesquisa para a guerra e as outras pesquisas, porém, essa separação não impediria o avanço da tecnologia de guerra e ainda poderia tirar recursos das outras áreas de pesquisa.

Algumas teorias foram exceções :

- Georges Sorel : tentou unir o marxismo à filosofia de vida de Bergson,obtendo um resultado que é estranhamente semelhante ao amálgama feito por Sartre de existencialismo e marxismo referente à luta de classes em termos militares e,mesmo assim, terminou ele por nada propor de mais violento do que o famoso mito da greve geral , um tipo de ação que hoje consideraríamos como parte do arsenal da política não-violenta.

- Sartre : vai muito além de Sorel em suas famosas “Reflexões sobre a violência”, e até além do próprio Fanon .Sartre tem no inconsciente uma discordância básica com relação a Marx sobre a questão da violência, especialmente ao afirmar que “a violência irreprimível é o homem recriando a si mesmo” .

*De acordo com Hegel o homem “produz” a si mesmo através do pensamento , já para Marx foi o trabalho , a maneira humana de metabolismo com a natureza , que preencheu essa função .

*Não se pode negar que um vácuo separa as atividades essencialmente pacíficas do pensamento e do trabalho de todos os atos de violência .

*Sartre mostra uma nova mudança de posição no pensamento dos revolucionários em apoio à violência.

Enfim, o avanço irrefreável nas técnicas e máquinas de guerra não ameaça certas classes de desemprego, mas ameaça a existência humana.

A autora inicia o capítulo diferenciando as gerações que na época do livro tem 20 anos, e a dos seus 30, 35 anos, e conclui que a nova geração não tinha esperanças de um mundo melhor. De fato, a geração que nasceu na década de 50, logo após a Segunda Grande Guerra, na época apresentava grande desânimo com relação ao futuro. Dizia-se com, freqüentemente, que não haveria futuro, por isso os jovens experimentaram as drogas e passaram por uma revolução muito grande.

Esta geração foi conhecida por todos como a geração Baby Boomers, ou seja, nascidas após a guerra. Devido ao fato do livro ser da década de 70, não se pode visualizar o futuro esta geração. Muitos desses indivíduos que nos anos 70 eram hippies e protestavam contra a guerra, o capitalismo e pregavam o amor livre tornaram-se os yuppies dos anos 80. Os yuppies foram um grupo cujo único objetivo era acumular bens e ter status social.

Existe, então, o choque, mais futuramente, entre os jovens que nasceram na década de 70, conhecidos como "Geração X" ( devido à grande incerteza que contagiou as pessoas nascidas nesta época, e a falta de estruturação de valores em sua infância-adolescência nos anos 80, fica um grande ponto de interrogação na mente de muitos sociólogos, por isso a grande adequação com a letra X, ou seja, uma incógnita)e os baby boomers, já entre 45 e 55 anos. A inquiteção e a angústia são marcas tácitas destes dois grupos durante suas respectivas vidas – os yuppies ansiavam por responder suas aspirações econômicas ( e as de seu grupo social) e os geração X, que buscam muito mais do que dinheiro, mas identidade pessoal, dentro de um mundo tão massificado.

Em sua jornada pelo ego, o jovem acaba indo por outros caminhos, como a fuga, a negação e a violência, por exemplo. O jovem, por não saber lidar com situações potencialmente estressantes, projeta na vida de um artista, de um músico, ou mesmo em seu sono a expectativa de que algum dia, miraculosamente, ele se torne alguém mais interessante, de acordo com os padrões pré estabelecidos pelo grupo no qual está inserido socialmente.

Sabe-se que a violência não gera nada, a não ser violência. Isso tornou-se ponto pacífico. Mas o jovem, enquanto ser social em desenvolvimento, tem que manifestar-se e interagir com a sociedade, de tal sorte que possa equilibrar-se e encontrar sua função social. Este momento de "rebelião" acontece principalmente na época de faculdade.

Essas manifestações, ou seja, esta rebelião estudantil, seria, teoricamente, universal. Mas o que acontece é que, dependendo de para onde tange o seu ponto de vista, a rebelião pode ser encarada como um sinônimo de violência física ou não. Caso seja, as manifestações seriam díspares.

Enquanto em muitos lugares do mundo praticam-se atos de protesto construtivos, como ocupações de prédios, passeatas, greves de fome, em alguns lugares parte-se para a violência física. Geralmente as camadas mais populares são paradoxalmente membros e objetos desta violência.

Exemplificadamente: No Brasil, por exemplo, existe um grupo conhecidos como "Os Carecas do ABC" que espancam e infringem punições a membros das camadas mais baixas da população, tais como os travestis, os nordestinos e os afro-brasileiros. Ironicamente, estas pessoas são, não raramente, descendentes de negros ou nordestinos, e freqüentemente pessoas que tem uma renda mais baixa do que a média da população "branca" e que,de alguma forma,foram prejudicadas e guardam rancor contra alguns indivíduos que teoricamente trabalhariam por um preço menor e "roubam" seus empregos, e projetam suas frustrações nos outros deste mesmo grupo causador teórico de seus problemas.

Outro problema grave é a desnivelação do nível superior que ocorre no mundo todo. Nos Estados Unidos, por exemplo, os afro-americanos com os seus sistemas de cotas, conseguiram acesso a universidade. Estes, reunidos lá, através de protestos violentos de forças mobilizadoras e repressoras ( leia-se black power e black panthers) conseguiram fazer com que os indivíduos tivessem uma situação mais privilegiada do que a dos euro-descendentes, por causa de um sentimento de culpa da comunidade euro-americana. Isso é afirmado até em relatórios como o "Violência na América", que dizia " (...) Força e violência são armas bem sucedidas de controle social e persuasão se tiverem amplo apoio popular". O Nazismo é um movimento que exemplifica este ponto de vista.

A autora fala também sobre a glorificação da violência que acontecia na década de 70; hoje em dia ocorre uma glamorização da violência. Nos dias de hoje é extremamente gloroficado e, de algum modo, encorajado por filmes e pelos meios de comunicação, invadir escolas e matar muitas pessoas inocentes. A violência chega a níveis absurdos, e por banalidades.

Grandes pensadores foram levados a racionalizar seguindo esta linha teoricamente irracional de que a violência é uma arma, "(...) como uma lança de Aquiles, que cura as feridas que causou"- Sartre. Caso fosse assim, estaríamos então no estado decaído inicial, tão falado por Hobbes, no qual não poderíamos nos diferenciar dos animais. A violência não é a cura de todos os males da sociedade, pelo contrário, até a piora.

Destes pensadores universitários que são violentos e pseudo-seguidores de Marx, Fanon é o que mais se destaca, tanto por causa de sua prolixidade, quanto pelo número de argumentos sem sentido que ele produz. Por exemplo, de seus livros vieram pérolas como " Gângsters iluminarão o caminho do povo" e também " A fome com dignidade é preferível ao pão em cativeiro". como diz a própria autora" (...) Fisiologicamente não é certo dizer isso. Se ele houvesse afirmado que o pão comido no cativeiro com dignidade é preferível ao bolo saboreado na escravidão teria perdido o seu objetivo retórico.

Hannah Arendt nega a idéia de que a violência, expressa por rebeliões e revoltas, possa ser a solução mais viável e plausível para contrariar regimes de exploração, sistemas rígidos e outras situações intransigentes. Isto vai de encontro à ideologia de Marx e Engels, Sartre e Fanon que acreditavam ser a violência uma forma de contrapeso à violência à violência imposta.

A respeito desta idéia apresentada pelo texto, é de se indagar tamanha rivalidade, isso porque seria de grande antagonismo usar da própria violência para contestá-la a si própria. Para lutar contra uma força e suavizá-la no cenário humano, é preciso combater todas as suas formas de expressão; sendo assim, lutar contra violência usando dela própria para reagir estar-se-ia, em vez de combatendo, cultivando-a e dando-lhe apoio para prosperar.

O parágrafo anterior tem como base de sua criticidade trechos subtraídos do texto e que podem elucidar o comentário feito: “Se isso fosse verdade, a vingança seria a cura para a maior parte dos males” e “a raridade das rebeliões de escravos e das revoltas entre os deserdados e humilhados é notória”.

Segundo Hannah Arendt, a explicação para todas as inconstâncias está no progresso. A definição de progresso; apresentada no dicionário de Política de N. Bobbio, N. Mattercoi e C. Pasquino; é a idéia de que o curso das coisas, principalmente da civilização, conta desde o início com um gradual crescimento do bem- estar, com melhora do indivíduo e da humanidade, constituindo um movimento em direção a um objetivo desejável.

A noção de progresso da humanidade evoluiu ao longo dos séculos. No século XVII, Pascal e Fontenelle afirmaram que o progresso é o acúmulo de conhecimentos através dos tempos. Já no século XVIII, Lessing definiu progresso como educação para a humanidade. Nesse contexto, o progresso é considerado limitado, pois a sociedade sem classes, teoria de Karl Marx, seria o fim da história. No século XIX, desaparecem os limites do progresso. “O ser humano nasce passível de perfeição, mas nunca será perfeito”. Partindo-se do princípio de que os movimentos do progresso originam-se das coisas de forças antagônicas, é possível interpretar todo o ‘retrocesso’.

Todas as doutrinas, com exceção a de Marx, analisam a História como “eterna repetição de acontecimentos”. No plano individual, a única certeza é a morte e no plano geral, o progresso é injusto, uma vez que apenas as gerações posteriores usufruirão dos benefícios batalhados pelas gerações anteriores.

Essa visão revela-se extremamente negativa e nesse ponto, Hannah Arendt, expõe Marx que ao analisar a teoria de Hegel, é o único a mostrar o aspecto do progresso.

Consoante Marx, o progresso não apenas explica o passado sem quebrar a continuidade do tempo como pode servir de guia para futuras ações”. Conseqüentemente, afloraram idéias como a fé dos liberais que dependem da noção de desenvolver o ser humano para que se torne melhor. Já a esquerda, propõe o desenvolvimento das atuais contradições, transformando-as em sua síntese básica.

Conclui Hegel: “nada mais surgirá exceto aquilo que já existia”.

 

Conclusão

 

Pode-se entender a diplomacia internacional como um carro típico da metade do século XIX. Sua rotação é garantida através de pactos, acordos ou tratados firmados entre os países, de forma que as engrenagens centrais (países desenvolvidos) movimentam as engrenagens periféricas (países subdesenvolvidos) segundo seus interesses econômicos e políticos. O motor, através de controladas explosões de combustível, produz uma força de propulsão que movimenta as engrenagens no sentido estabelecido pelas engrenagens centrais. Assim, o motor é o potencial de destruição que os países apresentam como forma de coerção para que se cumpram os “contratos internacionais”, garantindo a harmonia do sistema.

É desta forma que a “paz mundial” se estabeleceu no mundo contemporâneo: uma paz infundada, porque inexistente. Se os países estão cada vez mais preocupados em criar verdadeiras “maravilhas” bélicas de destruição ou bombas que aniquilariam o planeta em questão de segundos, eles estão se preparando para uma provável guerra. E enquanto esta não se observa, outro combate é travado ocultamente entre os Estados: o potencial de destruição dos países militarmente mais fortes é tão grande que subjuga os mais fracos, obrigando-os a seguir as disposições internacionais, mesmo que confrontem seus preceitos de soberania. É por isso que no âmbito internacional os fins tornaram-se mais importantes que os meios, ou seja, o armamento se destaca frente a própria guerra.

Um bom exemplo foi a Guerra dos Bálcãs, ocorrida em 1999. Os EUA, visando proteger seus interesses econômicos e políticos, e evitando que o conflito atingisse proporções devastadoras, bombardeou a região de Kosovo com o discurso de “evitar o massacre albanês”. Na verdade, o que se obteve foi um verdadeiro show, com o lançamento de bombas assistido por milhões de pessoas e majestosa posição dos americanos como “eternos defensores da justiça e da ordem”.

O estudo dos cientistas, juntamente com o progresso da tecnologia, é responsável pelo desenvolvimento de armamentos cada vez mais destrutivos. Eles trabalham em Universidades financiadas pelo governo, evidenciando a interdependência entre as duas organizações: o Estado precisa de tecnologia militar, as faculdades, de apoio financeiro. Esta relação inicialmente harmoniosa traz em seu bojo profundas conseqüências: os jovens universitários, nascidos em meio a uma geração de total repúdio ao combate armado – quer por duas guerras mundiais, quer pelo temor de uma hecatombe durante a Guerra Fria – , quando cientes dos horrores que suas pesquisas e invenções poderão provocar em um mundo que ainda “não cessou totalmente seus grandes canhões”, refugiam-se em teorias marxistas e hegelianas para a prosperidade dos seres humanos.

Segundo Karl Marx, cada período da História fundamenta-se nas relações econômicas entre os indivíduos de determinada sociedade. Tais relações (infra-estrutura) são os pilares que originam e sustentam todas as demais relações (superestruturas), a saber: relações jurídicas, religiosas, políticas, sociais. As relações sociais, por sua vez, são marcadas por antagonismos entre classes (dominantes e dominados) observados em qualquer período histórico. É evidente que conflitos armados e revoltas são desdobramentos do antagonismo de classes, apresentando-se como meros indicadores de uma superestrutura e, portanto, incapazes de alterar as relações de determinada sociedade.

É isto que os universitários insistem em não compreender. Em sua necessidade de mudar o desconfortável dualismo em que se encontram – “devemos evitar uma guerra mundial, mas precisamos criar bombas que destruam o planeta em centésimos de segundo” – eles organizam-se em revoltas generalizadas por todo o globo. Algumas delas limitam-se a criar pequenas “sociedades artificiais” isoladas, compostas por indivíduos com características predeterminadas (como o movimento Black Power), mas sua maior parte preocupa-se em alterar completamente o todo social.

Influenciados por interpretações exaltadas e errôneas da teoria marxista – encontradas em obras como as de Sartre e Fanon – os movimentos estudantis apresentam características singulares: pregam a revolta do estudante e do proletariado, mas não se preocupam em transformar a ordem capitalista.

E a sociedade, por classificar jovens como meros “extremistas”, repudia qualquer manifestação estudantil, inviabilizando sua união com os trabalhadores, ou seja, com o objeto do seu movimento. Perdidos em meio a um cenário caótico, os jovens organizam mais revoltas, correspondidas com a indignação da sociedade. É assim que a violência nacional surge em prol da internacional em um processo contínuo e incontrolável.

Voltando ao carro da diplomacia internacional, o movimento estudantil são rodas que insistem em “andar para trás” por temerem o asfalto liso pelo qual deverão passar. Produto de uma sociedade ambígua, movida por impulsos capitalistas e injeções morais, as rodas do carro, ao final, igualam-se a suas demais partes: observam atentamente o motor da grande máquina, aguardando o momento de uma explosão rápida, impetuosa e catastrófica, que marcará o fim de todos os seus passageiros.